Má nutrição e falta de saneamento básico estão mais associadas à mortalidade de crianças pretas e indígenas

Especialista convidada do Saúde com Ciência afirma que a morte desses grupos reflete as desigualdades sociais do país


21 de novembro de 2022 - , , ,


As crianças pretas e indígenas têm mais chances de morrer por diarreia. É o que apontou um estudo do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) da Bahia. Segundo a pesquisa, as indígenas têm 14 vezes mais chances de morrer em decorrência da situação, e nas pretas, o risco é 72% maior, se comparado com crianças nascidas de mães brancas.

Para a professora do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da UFMG, Ana Cristina Simões, convidada do Saúde com Ciência desta semana, os números refletem as desigualdades sociais presentes no Brasil, já que “os indígenas têm pouco acesso aos serviços de saúde, vivem em comunidades mais isoladas, muitas vezes com condições precárias de higiene e de saneamento”, afirma.

Em relação à população negra, a situação é semelhante. “Muitas vezes, essas pessoas vêm de comunidades carentes, com menos recursos financeiros, menos acesso aos serviços de saúde. E, consequentemente, as taxas de óbito aumentam”, completa Ana Cristina.

Outra situação que também contribui para a mortalidade dessas crianças é a má nutrição, que, segundo a pesquisa, afeta 16 vezes mais as crianças indígenas e duas vezes mais as pretas se comparado com crianças nascidas de mães brancas. Essa questão está associada à morte desses grupos pois a imunidade deles fica comprometida.

“Uma pessoa desnutrida está mais frágil e mais susceptível a diferentes infecções. E a resposta a elas é pior também. Então, a chance de morrer por uma infecção que, às vezes, em uma criança nutrida não mataria é muito maior”, explica a especialista.

Consequências para além da mortalidade

Além de levar à morte de várias crianças pretas e indígenas, a falta de saneamento e a má nutrição também trazem consequências àquelas que sobreviveram. No caso das condições precárias, se nada for feito, a situação pode se perpetuar para as demais gerações. “Essa pessoa que teve condições precárias de vida terá filhos com a mesma situação. E vai virando algo grande, que nunca se reverte”, afirma Ana Cristina Simões.

Já a má nutrição pode trazer diversos impactos para o desenvolvimento dessas crianças. Uma das consequências é a baixa estatura, pois, na medida em que a criança fica cada vez mais desnutrida, ela também para de crescer.

“Impacta também no desenvolvimento neuropsicomotor, algumas funções cerebrais vão sendo impactadas, dependendo do grau de desnutrição e dos nutrientes envolvidos. Enfim, uma série de funções biológicas vão ser comprometidas e podem ser para sempre”, conclui a professora.

Saúde com Ciência

O programa de rádio Saúde com Ciência desta semana discute como está a saúde das crianças pretas e indígenas, aborda a desigualdade no acesso à saúde, às condições básicas de saneamento e as consequências desses fatores para a vida dessa população.

Saúde com Ciência é produzido pelo Centro de Comunicação Social da Faculdade de Medicina da UFMG e tem a proposta de informar e tirar dúvidas da população sobre temas da saúde. Ouça na Rádio UFMG Educativa (104,5 FM) de segunda a sexta-feira, às 5h, 8h e 18h. Também é possível ouvir o programa pelas principais plataformas de podcasts.


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