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Uso exagerado de fármacos leva à medicalização da vida

Nesta edição das Aspas Sonoras, especialista alerta para o exagero no uso de medicamentos


20 de fevereiro de 2020 - , ,


Foi-se o tempo em que escutar música romântica acalmava dores de amor ou que tomar suco de maracujá ajudava a dormir. Hoje, ao menor sinal de dor ou sofrimento, algum medicamento é logo indicado para resolver qualquer problema. Mas nem sempre essa é a melhor saída, sendo necessário ir mais profundo na dor para descobrir suas causas e, só assim, tratá-las. Isso, com ou sem medicamentos. Do contrário, o risco que se corre é o da medicalização da vida.

Foto: Carol Morena.

A professora do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da UFMG, Cristiane de Freitas Cunha Grillo, afirma que a medicalização, isto é, o uso exagerado de medicamentos, reflete o modelo da nossa economia, sempre em busca de um resultado mais imediato. Afinal, é preciso estar sempre bem para conseguir desempenhar as tarefas, e os fármacos são uma saída para uma recuperação mais rápida.

De acordo com a professora, o empobrecimento da clínica médica, que não busca entender o que o paciente realmente demanda, também pode levar à medicalização. Ouça a seguir:

Exagero

Vale ressaltar que para muitos casos os medicamentos são fundamentais e, muitas vezes, não são usados, agravando o quadro do paciente. Mas isso não caracteriza a medicalização.

Cristiane de Freitas Cunha Grillo explica que o termo é empregado quando os fármacos são usados para a resolução de problemas que são inerentes à condição humana, como o luto e a tristeza e até um certo mal-estar de existir. É como se os medicamentos pudessem resolver esses problemas, mas os fármacos nem sempre são necessários.

No áudio a seguir, a professora exemplifica essa questão:

Novas doenças

Na série de rádio do Saúde com Ciência “Que doença é essa? Novas doenças e doenças do futuro”, o vício em videogames é um dos temas do programa. A dependência em jogos será considerada doença a partir de 2022, ano que esse vício será incluído na Classificação Internacional de doenças (CID).

Para a especialista, é preciso ficar atento, também, ao exagero das nomeações de doenças para que a relação médico e paciente não seja conturbada:

Formação

A professora destaca a importância da formação médica para um atendimento clínico mais aberto a questões subjetivas e sociais:

Aspas Sonoras

As “Aspas Sonoras”, produção do Centro de Comunicação Social da Faculdade de Medicina da UFMG, ampliam a discussão sobre os temas abordados nas séries de rádio realizadas pelo Saúde com Ciência. As matérias apresentam áudios e textos inéditos do material apurado na produção das séries.