A pessoa como centro da Atenção Primária em Saúde

Professoras discutiram a importância da aplicação do Método Clínico Centrado na Pessoa (MCCP).


29 de agosto de 2017


Professoras atuantes em Medicina da Família e Comunidade discutiram a aplicação do Método Clínico Centrado na Pessoa (MCCP) e sua importância na conjuntura atual. 

Carol Prado*

A mesa-redonda foi aberta por uma didática intervenção de um grupo de estudantes que representaram um caso clínico sob duas diferentes abordagens: apenas clínica, e a abordagem voltada para a pessoa.

Rosa Souza defendeu a perspectiva da medicina centrada na pessoa desde a universidade. Foto: Carol Morena

Com convidadas da UFMG, UERJ, UFSJ e Universidad Peruana Cayetano Heredia (UPCH), além da participação de Polly Amaral, coordenadora do espaço para gestantes Ishtar de Belo Horizonte, a professora Rosa Gouveia Souza iniciou a discussão frisando a importância de se aplicar a abordagem voltada para a pessoa desde o ensino, dentro da universidade: “É preciso atender a necessidade do estudante para explicar o MCCP. É preciso vivenciar o MCCP, para então pensá-lo e aplicá-lo”, defendeu.

Para ela, há necessidade e importância do diálogo na relação médico-paciente em um trabalho de cooperação, para alcançar resultado mais efetivo. Segundo a professora, as expressões não-verbais utilizadas pelo paciente (gestos, expressões faciais, a forma de se portar) podem ser tão ou mais significativas que as palavras em si. Ela destacou ainda a necessidade de se considerar a família como parte relevante para um diagnóstico.

A professora do Departamento de Medicina Integral, Família e Comunidade da UERJ, Maria Inez Padula, apontou problemas relacionados à postura de grande parte do corpo médico. Fatores como distanciamento, falta de contato visual e diálogo, além de atendimento rápido e falta de recursos foram citados como parte dessa realidade. Ela apontou ainda a falta de alinhamento entre demandas, ofertas e necessidades de pacientes e profissionais. “A medicina é tratada muitas vezes como um mercado. A doença é sedutora para a indústria farmacêutica, gerando o consumo de determinado tipo de cuidado”, alertou.

Para Maria Inez, é importante visualizar os problemas de saúde com unicidade, uma combinação de fatores que incluem relações pessoais, estresse, família, trabalho, poluição.

Relação médico-paciente
A professora Maria Sofia Fuendes da UPCH usou metáforas para explicar o papel do profissional de saúde: “Nós da medicina somos como a porta do sistema. Os porteiros não podem ficar centrados em tecnologia e processos, e precisam centrar nas pessoas”, relacionou. Ela disse ainda que os médicos devem ser coordenadores de cuidado das pessoas, aplicando os conhecimentos necessários. “Apesar de parecer que estamos sobrecarregados, devemos ter paciência, pois os pacientes carregam a carga maior”, afirmou.

Maria Sofia Fuendes frisou também a importância da individualidade na avaliação de pacientes, citando o poeta peruano E. Cassel para dizer que o sofrimento é uma experiência pessoal: “Devemos ler a partitura de cada paciente, e classificá-los unicamente”, completou.

Saúde da mulher e direitos reprodutivos
Quebrando a perspectiva científica, Polly Amaral, ativista pelos direitos das mulheres usou seu lugar de fala para expor a emoção ao perceber que há pessoas preocupadas com a perspectiva do paciente, procurando gerar mudanças e entrar nessa luta.

Ela relacionou a violência obstétrica diretamente à violência de gênero: “O que se percebe quando se começa a lidar a fundo com a violência da mulher é que durante a gestação e parto há a reprodução da violência que a mulher sofre diariamente”, constatou. “A violência de gênero é intensificada. O sistema reproduz a violência”, lamentou a ativista. Para ela, devido a uma cultura patriarcal, a mulher não é culturalmente dona do próprio corpo. “É uma luta que precisamos travar para resgatar o direito que devemos ter sobre o nosso corpo. E essa situação é reproduzida no parto”, realçou.

Imigrantes
A perspectiva do imigrante foi pontuada pela professora Anne Andermann, da McGuill University, do Canadá, por videoconferência. Ela comentou sobre a importância de se considerar as diferenças culturais, já que vindos de um local diferente, é necessário cuidado especial e adaptação.

Congresso Nacional de Saúde
A programação da 4ª edição do Congresso reúne mais de 10 mesas-redondas, workshops e oficinas em torno do tema “Promoção da Saúde: Interfaces, Impasses e Perspectivas”, além de três simpósios internacionais nas áreas de prática e ensino de Saúde.

O Congresso Nacional de Saúde vai até 30 de agosto de 2017, com atividades pela manhã e à tarde, divididas em três eixos temáticos e um eixo transversal. O evento conta ainda com atividades culturais, com exposições, apresentações, lançamentos de livros e intervenções durante toda a programação, que integra ainda a programação das comemorações dos 90 anos da UFMG, celebrados em 2017.

A Secretaria executiva do 4º Congresso Nacional da Saúde atende na sala 5, no térreo  da Unidade.

Confira a programação completa na página do Congresso Nacional de Saúde.

Mais informações: 3409 8053, ou ainda pelo e-mail 4congresso@medicina.ufmg.br

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*Redação: Carol Prado, estagiária de jornalismo
Edição: Mariana Pires