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Mais estressados e em frente às telas: pandemia afeta saúde mental de crianças e adolescentes

Programa de rádio dedicado ao “Setembro Amarelo” analisa impactos da pandemia na saúde mental de crianças e adolescentes e como reduzir os danos


14 de setembro de 2021 - , , , , ,


*Maria Beatriz Aquino

Estudos nacionais e internacionais já mostram há algum tempo que a pandemia de covid-19 tem causado sequelas psicológicas na população adulta.  Mas o que nem todos sabem ou conseguem identificar é que as crianças e adolescentes também estão com a saúde mental fragilizada neste momento. E isso preocupa ainda mais ao analisar o contexto de saúde psíquica que essa faixa etária se encontra: de acordo com a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), o suicídio é a segunda causa de mortes entre jovens de 15 a 29 anos.

Para compreender melhor como a mudança de estilo de vida ocasionada pela pandemia impactou a rotina e a mente de crianças e adolescentes, professores da Faculdade de Medicina da UFMG realizam estudo, com aplicação de questionários. A pesquisa já está na segunda etapa e conta com a participação de pais com filhos de 6 a 17 anos.

Os resultados preliminares mostram que o afastamento da escola e o tédio da rotina doméstica provocaram novos vícios nas crianças, que passaram a ficar mais tempo em uso de dispositivos eletrônicos para jogos online, por exemplo. E especialistas alertam que esse tempo excedente pode desenvolver série de sentimentos desagradáveis e até doenças, como ansiedade e depressão.

“Na primeira onda, quase 40% das crianças estavam ficando mais de oito horas na frente da tela e que estavam tendo uma frequência grande de estresse”, destaca a professora do Departamento de Pediatria da Faculdade, Débora Miranda, uma das coordenadoras responsáveis pela pesquisa.

Mais impactadas

Segundo a especialista, as crianças e adolescentes foram as que sentiram maior impacto na pandemia, já que muitos adultos, aos poucos, retomaram a rotina de trabalho. “A escola era um lugar de proteção e nós passamos quase dois anos sem ter todas essas proteções. A gente precisa ter reinserção dessas crianças em termos sociais”, analisa.

Afastados do convívio de amigos e familiares e com maior tempo nas telas, a qualidade do sono piorou, o que contribui para aumentar sintomas associados à sofrimentos mentais.

“Aumenta a obesidade e todos os riscos relacionados a isso. A gente aumenta a exaustão, o cansaço das crianças”, completa Débora. Por isso, a professora reforça a importância de os pais sempre acompanharem o conteúdo consumido pelos filhos e determinarem limites de tempo.

Ela também orienta a ficar atento a alguns sinais, embora sejam mais difíceis de serem percebidos nos pequenos.

“Preocupe-se em avaliar se aquela criança não está mais tristonha, introspectiva ou se ela não se isolou e está distante dos amigos e do seu grupo de suporte”, aconselha.

CUIDADOS

Apesar de essas serem algumas das estratégias que ajudam a preservar a saúde mental infantil, o acompanhamento médico psicológico deve sempre ser uma opção considerada pela família da criança e do adolescente, e nunca visto com preconceito.

A professora explica que sinais como choro intenso e mudança de comportamento funcionam como uma espécie de alerta e um ponto de partida para que a ajuda profissional seja devidamente encaminhada e não chegue a níveis extremos.

“É da busca de ajuda e reestruturação das coisas que a gente consegue melhorar e não ter quadros mais críticos em termos de saúde mental”, reforça a Débora Miranda.

Assim como o acompanhamento psicológico funciona como um tratamento para auxiliar nas condições psíquicas das crianças, a convivência familiar contínua e a troca de interações afetivas entre pais e filhos também podem ajudar a evitar situações mais graves. Para isso, a professora sugere que os pais passem o maior tempo possível com os filhos e promova momentos prazerosos e de lazer.

“Andar de bicicleta, ir à praça e outras coisas prazerosas à família são práticas que geram mecanismos de proteção para a criança e o adolescente em termo de saúde mental”, exemplifica.

A pesquisa segue para sua terceira fase e o novo foco é quantificar o número de pessoas que conseguiram se recuperar dos danos mentais causados pela pandemia e como esse processo ocorreu. A previsão é a de que, após a segunda onda de covid-19 no país, a sensação de estresse diminua e permaneça controlada, assim como era perceptível no período pré-pandemia.

Se você sentir a necessidade de conversar com alguém sobre seus sentimentos e pensamentos, ligue gratuitamente para o CVV no número 188 ou entre no site  www.cvv.org.br.

Em caso de urgência ou emergência, acione imediatamente o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), pelo telefone 192. Além das tentativas de suicídio, são considerados casos urgentes em saúde mental todas as situações de quadros agudos, com risco de vida ou risco social, como automutilação, ameaças de suicídio, violência ou comprometimento grave do juízo.

Confira a cartilha sobre prevenção ao suicídio elaborada pela Faculdade de Medicina da UFMG.

A comunidade da Faculdade de Medicina também tem opções para receber apoio psicológico e psicopedagógico dentro da Instituição e no campus Pampulha da UFMG. Neste mês de setembro, a Faculdade dá início a sua campanha de conscientização sobre esses serviços permanentes de apoio à saúde mental, com divulgação em diferentes canais de comunicação como reportagens, email e redes sociais.

Saiba mais no Saúde com Ciência

Além de abordar a saúde mental de crianças e jovens, no programa “Saúde com Ciência”, especialistas explicam a importância de priorizar a saúde mental, como identificar sinais de adoecimento psíquico, dicas para prevenir o sofrimento mental nesses tempos tão difíceis e como buscar ajduar. Ouça aqui.

O programa é produzido pelo Centro de Comunicação Social da Faculdade de Medicina da UFMG e tem a proposta de informar e tirar dúvidas da população sobre temas da saúde. Ouça na Rádio UFMG Educativa (104,5 FM) de segunda a quinta-feira, às 5h, 8h e 18h. Também é possível ouvir o programa pelo serviço de streaming Spotify.

*Maria Beatriz Aquino – estagiária de Jornalismo
Edição: Karla Scarmigliat

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