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Saúde mental deve ser uma atenção permanente e de todos

Especialista defende a importância de a sociedade desmistificar tabus que cercam as doenças mentais para que a prevenção ao suicídio seja mais exitosa, além da necessidade de uma política nacional de atenção à questão


01 de setembro de 2021 - , , , , , ,


“E fora do story, tu tá bem?”. Essa pergunta percorreu vários perfis de algumas redes sociais nas últimas semanas e, ainda que tenha se transformado em um meme, também chamou a atenção para o cuidado da saúde mental. Enquanto nas redes sociais as fotos e vídeos as pessoas aparentam uma “vida perfeita”, o Brasil também camufla uma preocupação real de saúde pública com a ideia de um país tropical feliz.

“O brasileiro é tido como um povo alegre, mas na verdade somos campeão na América Latina de transtorno de ansiedade. Também há alguns estudos que mostram que o Brasil ficaria em primeiro lugar na América Latina, ou mesmo um dos primeiros no mundo, com prevalência de depressão”, alerta Humberto Correa, professor Titular do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da UFMG e presidente da Associação Latino-Americana de Prevenção ao Suicídio. Ele reconhece que tem havido avanços, mas aponta que as doenças mentais continuam sendo um grande tabu, principalmente quando se fala sobre suicídio.

“O Setembro Amarelo veio para contribuir com isso, um momento de sensibilizar a sociedade, de esclarecer as pessoas em relação ao suicídio, que é um assunto de saúde pública altamente relevante no Brasil e no mundo. Então acho que tem melhorado sim, mas o que falta? O Brasil é um dos únicos grandes países do mundo que não tem políticas públicas para a prevenção do suicídio”

Aponta Correa

Ele argumenta que são necessárias diretrizes nacionais e, como o Brasil é um país muito grande, ter algumas adaptações regionais. Também cita que vários países que estabeleceram políticas de prevenção conseguiram reduzir as taxas de mortalidade por suicídio. Alguns tiveram até 20% de redução nos últimos 20 anos, enquanto no Brasil foi o contrário, as taxas de suicídio aumentaram 40%. Além disso, Humberto chama a atenção que boa parte dos brasileiros não tem acesso de fato à atenção em saúde mental no sistema público de saúde.

“Eu trabalho com suicídio há 30 anos e falo que esse não é um assunto exclusivo do profissional de saúde, não é um assunto do médico. O suicídio tem que ser encarado como assunto da sociedade como um todo

“Na escola, com os professores, nas famílias, a mídia também tem um papel fundamental. As pessoas têm que falar mais sobre isso. Mas obviamente que falar de forma adequada, dando informações de qualidade, evitando o sensacionalismo, evitando ficar noticiando suicídios individuais de um ou de outro, passando a tratar o assunto como algo que ele é, que é uma questão de saúde pública importante e ajudar a população a entender o fenômeno e procurar ajuda quando for necessário”, acrescenta.

É com esse objetivo que a Associação Mineira de Psiquiatria, o CRM, Associação Médica de Minas Gerais, os sindicatos médicos, Coren-MG e OAB escolheram o tema “Saúde mental importa” como tema da campanha de Setembro Amarelo em Minas Gerais. “Sabemos que quase totalidade dos suicídios que acontecem estão associados a uma doença mental. Quase todas as doenças mentais, estão envolvidas. A depressão é a mais importante delas, porque é muito prevalente, muito comum. Então a ideia da campanha de focar nesse tema foi para lembrar que uma assistência em saúde mental de qualidade previne o suicídio”, explica Humberto.

Como a pandemia muda esse cenário

De acordo com o Humberto Corrêa, há alguns estudos que mostram que as taxas de suicídio tendem a não aumentar em momentos de crise, como guerra, devido ao laço social forte, mas sim após esse período. Dessa forma, é preciso que desde já a questão receba atenção, pois “essa pandemia tem todos os ingredientes para temos mais adoecimento mental e, consequentemente, mais suicídio”.

O próprio isolamento social, por exemplo, aplicado em diferentes regiões e em diferentes momentos, pode levar a um grande sofrimento psíquico para muitas pessoas. Também há a questão da infodemia, uma epidemia de informações e circulando de forma instantânea, incluindo informações até deliberadamente falsas, o que aumentam a insegurança e a ansiedade das pessoas. Sentimentos também causados pela crise econômica, fazendo com que as pessoas deixam de planejar o seu futuro em função das incertezas.

Foto: Pixabay

“O fato é que os estudos têm mostrado um aumento importante de transtornos depressivos nesse período e de ansiedade. Já temos nesse momento pandêmico e, provavelmente, teremos nos próximos anos, uma epidemia de adoecimentos mentais. Teríamos que ter um Sistema de Atenção à Saúde Mental preparado para esse aumento. Outra coisa muito importante é uso e abuso de dependência de álcool e outras drogas”, alerta Correa. “É muito comum que a pessoa esteja passando por um processo depressivo ou um transtorno de ansiedade e aumente o consumo do álcool em função disso, como se o álcool fosse aliviar esses incômodos ou se fosse tratar esses sintomas e, então, a pessoa acaba tendo dois problemas: a depressão e a dependência, por exemplo”.

Uma pesquisa da Organização Pan-Americana da Saúde, inclusive, aponta que os jovens foram o principal grupo a consumir muito álcool no período da pandemia de covid-19 e que quadros graves de ansiedade aumentaram em 73% a chance de maior frequência desse consumo. Ao mesmo tempo, o professor Humberto lembra que as faixas etárias de maior preocupação para o risco de suicídio são os idosos, que já eram apontados nos estudos iniciais, e os jovens, pessoas dos 15 aos 29 anos de idade. “No mundo inteiro as taxas de suicídio nessa faixa etária dobraram ou triplicaram nas últimas décadas, o mesmo aconteceu no Brasil”, aponta Humberto.

Então o que fazer? Quais são os cuidados?

“Eu acho que são as regras habituais, inclusive de antes da pandemia, mas que temos que estarmos mais alertas ainda nesse momento”, afirma Correa. Entre as orientações de cuidados para a saúde mental, ele aponta a atividade física, o mais regular possível, como uma ação que traz benefícios de prevenção ao adoecimento e até faz parte do tratamento de depressão, por exemplo. Apesar das dificuldades imposta pela pandemia, tentar manter o convívio com as pessoas, ainda que seja virtualmente, mas tentar não se isolar.

“Uma recomendação que dou sempre para momentos como esse de estresse e de crise é que não é hora de colocarmos desafios pessoais enormes, de querermos nos superar exatamente nesse momento. Então termos metas razoáveis, plausíveis em termos de produtividade, sem exageros, sem querer, fazer mais do que fazia antes justamente nesse momento. Além de ter atividades de lazer, algum hobby que seja mais fácil praticar para você sair um pouco desse mundo pandêmico que ainda vivemos”, destaca Humberto. “Evitar o abuso de álcool e outras substâncias é outra coisa muito importante, completa.

“Caso perceba, em você mesmo ou no próximo, que a pessoa pode estar passando por uma dificuldade maior, ajude a procurar um profissional especializado, uma psicoterapia ou um psiquiatra que possa, eventualmente, fazer um diagnóstico e, se necessário, iniciar um tratamento com essa pessoa”

Doença mental não é fraqueza, doença mental não é falta de caráter. A doença mental é um complexo que envolve causas tanto biológicas quanto ambientais e hoje temos tratamentos para elas absolutamente eficazes. Eu diria que na Medicina, a psiquiatria é uma área que nós conseguimos tratar com bastante eficácia e segurança boa parte das doenças mentais que nós observamos”

Se você sentir a necessidade de conversar com alguém sobre seus sentimentos e pensamentos, ligue gratuitamente para o CVV no número 188 ou entre no site  www.cvv.org.br.

Em caso de urgência ou emergência, acione imediatamente o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), pelo telefone 192. Além das tentativas de suicídio, são considerados casos urgentes em saúde mental todas as situações de quadros agudos, com risco de vida ou risco social, como automutilação, ameaças de suicídio, violência ou comprometimento grave do juízo.

Confira a cartilha sobre prevenção ao suicídio elaborada pela Faculdade de Medicina da UFMG.

A comunidade da Faculdade de Medicina também tem opções para receber apoio psicológico e psicopedagógico dentro da Instituição e no campus Pampulha da UFMG. Neste mês de setembro, a Faculdade dá início a sua campanha de conscientização sobre esses serviços permanentes de apoio à saúde mental, com divulgação em diferentes canais de comunicação como reportagens, email e redes sociais.

Acesse também www.medicina.ufmg.br/saudemental.