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Profissionais da linha de frente encaram desafios de saúde mental na pandemia

Engajamento da população é chave para o bem-estar emocional e psicológico de quem cuida; confira depoimentos.


22 de Maio de 2020 - , ,


* Gabriela Meireles

Indispensáveis, os profissionais da saúde atuando no combate ao covid-19 estão entre os grupos mais vulneráveis às consequências emocionais e psicológicas da pandemia. Eles encaram rotinas exaustivas, onde o foco é dar tudo de si para cuidar dos pacientes infectados. Neste cenário, o amparo à saúde mental da linha de frente cabe também à coletividade, responsável por se informar, validar e respeitar quem cuida.

“A mídia tem nos colocado como heróis, mas o que realmente nos acrescenta é que cada pessoa se imagine no lugar de um profissional de saúde”, defende a enfermeira Cláudia de Paula. “Só quero que a população entenda que é preciso ficar em casa. O profissional de saúde é apenas um protagonista neste cenário. Uma população consciente e solidária é a principal arma de enfrentamento”, orienta.

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Tudo bem buscar ajuda

Cláudia defende o reconhecimento das fragilidades. Foto: arquivo pessoal.

Atualmente, Cláudia é uma das profissionais atendidas pelo projeto TelePAN Saúde, da Faculdade de Medicina UFMG. Assim como muitas pessoas, ela conta que precisou superar certas questões antes de aceitar ajuda especializada. “Reconhecer nossas fragilidades não é fácil, sobretudo se estamos diante de um desafio que nos coloca como principais protagonistas”, compartilha.

“No segundo atendimento [do projeto] já percebi o quanto aquilo era importante para todos os profissionais que estão vivenciando, de qualquer forma, o enfrentamento ao covid-19”, conta a enfermeira da linha de frente. “Registro aqui a seriedade dos atendimentos, o compromisso da profissional que me atendeu e dos que monitoraram meu acompanhamento”, elogia.

Mesmo que iniciativas como o TelePAN estejam determinadas a fornecer suporte psicológico, alguns profissionais ainda hesitam em aceitar ajuda. São vários os motivos, afinal, muitos preferem outras formas de cuidado. Entretanto, é possível que sentimentos como preconceito ou vergonha estejam por trás dessa resistência, como alerta o médico psiquiatra e atendente voluntário do projeto, Júlio César Menezes Vieira.

“Nem a população e muito menos os profissionais da saúde podem mais manter uma visão mágica que são inabaláveis e não adoecem mentalmente diante do isolamento, da incerteza e do medo da covid-19”, defende.

Júlio destaca a reação aguda ao estresse e o burnout. Foto: arquivo pessoal.

Para o psiquiatra, vários desafios interferem no bem-estar mental da linha de frente. “Sobrecarga do trabalho e sensação de impotência ao testemunhar o número significativo de mortes pela covid-19 podem gerar reação aguda ao estresse e transtorno de esgotamento (burnout)”, explica.

“Além da autonegligência dos cuidados por parte dos profissionais de saúde, principalmente referente a saúde mental”, destaca.

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Assim, a quebra de tabus sobre saúde mental é crucial para a autopreservação desse grupo. “A população pode se tornar mais sensível em relação às dificuldades enfrentadas pelos profissionais de saúde a partir da maior divulgação dos dados sobre o adoecimento deles e pela quebra do silêncio dos próprios profissionais da área ao assumirem suas fragilidades e reconhecerem a necessidade de auxílio imediato”, revela.

Se informar é praticar responsabilidade social

Para Grazielle, medo de adoecer não deve ser ignorado. Foto: arquivo pessoal.

Para a enfermeira de urgência, Grazielle Rodrigues, controlar o medo e a ansiedade durante a pandemia não têm sido fácil. “Trabalhar no CTI já demanda uma atenção e um estado de vigília superiores a outros setores de atenção à saúde. Com o novo coronavírus, passei a ter que administrar todo esse trabalho da UTI entremeado ao medo de adoecer e transmitir à minha família”, explica.

Neste momento, é fundamental que mais relatos como o de Grazielle ganhem destaque. Eles falam da sensação de impotência frente à letalidade da doença, de exaustão, da insuficiência de EPIs (e consequente aumento da exposição ao contágio), do distanciamento dos familiares e da falta de engajamento da população. São fundamentais para que as necessidades desses profissionais sejam reconhecidas, por isso não devem ser ignorados.

Paulo ressalta que profissionais são gente que sofre. Foto: arquivo pessoal.

Isso seria o ideal. Entretanto, segundo Paulo Roberto Ceccarelli, psicólogo e psicanalista voluntário do TelePAN, a pandemia está despertando egoísmo em algumas pessoas. “Elas não entendem que o enfermeiro, médico, assistente – ou quem estiver atendendo – é gente que sofre, precisa de um tempo, precisa descansar”, revela. “Não se importam, querem que eles estejam lá quando precisarem deles”, critica.

Uma das orientações da OMS à população geral é: “Homenageie e aprecie o trabalho dos cuidadores e dos agentes de saúde que estão apoiando os afetados pelo novo coronavírus em sua região. Reconheça o papel deles para salvar vidas e manter todos seguros.”

A principal ferramenta contra a apatia é a informação. A partir dela, é possível contribuir com a linha de frente de novas maneiras. “A população em geral precisa apoiar ações e políticas que promovam o reconhecimento, a segurança e cuidado dos trabalhadores da saúde”, especifica o professor do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade e coordenador do TelePAN Saúde, Helian Nunes.

“Precisamos de medicamentos, hospitais, leitos e equipamentos”, destaca. “Mas precisamos ainda mais de equipes de trabalho em saúde que possam atuar na assistência dos pacientes vítimas da infecção, especialmente se a pandemia sair do controle e sobrecarregar os diversos níveis de assistência em saúde”, explica o coordenador. Por isso mesmo, a saúde geral desses profissionais não pode ficar em segundo plano.

Opções para autocuidado

A rotina dos profissionais de saúde varia bastante. Assim, a melhor forma de cuidado para cada um deles também será diferente. Para aqueles com jornadas atribuladas e que buscam tranquilidade, o projeto Kundalini Yoga em 15 minutos pode ser uma boa escolha. Esta é uma parceria entre o projeto – que faz parte da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional (EEFFTO) -, a iniciativa “Adote a sua vizinhança em tempos de Coronavírus” e o TelePAN da Faculdade de Medicina da UFMG. **

“Como benefícios, além da melhoria do estilo de vida, a prática ajuda no manejo do estresse, autocontrole e equilíbrio emocional, atua no equilíbrio do sistema nervoso autônomo, melhora a vitalidade e promove o relaxamento”, apresenta Maria Cristina Rosa, professora da EEFFTO e uma das coordenadoras da iniciativa.

Kundalini Yoga em 15 minutos
O que? Vídeos semanais no Youtube, com técnicas rápidas e efetivas de Yoga para aplicação no dia-a-dia.
Como participar? Basta se inscrever no canal Kundalini Yoga em 15 minutos no YouTube, par ter acesso.

Já para aqueles que preferem mais movimento, o projeto Grupo Corpo de Plantão pode ser a melhor alternativa. Desenvolvido pela companhia mineira de dança Grupo Corpo, a proposta é disponibilizar aulas gratuitas para os profissionais de saúde na linha de frente.

Grupo Corpo de Plantão
O que?
Aulas online contendo exercícios, alongamentos e sequências coreográficas breves.
Quando? Transmissão ao vivo pelo Youtube, às sextas-feiras, 19h.
Como participar? Inscrições realizadas por formulário

Gabriela Meireles – estagiária de Jornalismo
Edição: Vitor Maia


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** Atualizado em 25 de maio