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Síndrome inflamatória também acomete crianças assintomáticas ou com casos leves

Apesar de rara, não é possível prever qual criança poderá desenvolver a síndrome


13 de abril de 2021 - , , , , ,


*Maria Beatriz Aquino

Crianças e adolescentes, que geralmente são menos afetadas pelo coronavírus, se tornaram o grupo alvo de uma síndrome muito rara associada à covid-19: a Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIM-P). Ainda pouco discutida pela população e gerando muitas dúvidas entre os pais, a síndrome se desenvolve entre duas e quatro semanas depois do contato com o vírus e estudo científico recente mostra que maioria são resultados de casos leves ou assintomáticos da infecção pelo novo coronavírus.

Programa de rádio Saúde com Ciência explica como o vírus pode afetar as crianças, quais cuidados é preciso ter para a prevenção e a importância de ter vacinas para essa faixa etária.

A síndrome pode ser grave, sendo caracterizada por inflamações que são desencadeadas pelo organismo na tentativa de defesa ao vírus. As crianças e adolescentes com até 19 anos são as mais acometidas, mas ainda não se sabe o porquê dessa faixa etária desenvolver essa condição. Em Minas Gerais, já foram confirmadas 86 casos e duas mortes por SIM-P, segundo dados do último boletim epidemiológico da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais, coletados na primeira semana de abril.  

Manifestações da síndrome inflamatória

Nos raros casos em que a SIM-P se desenvolve, os sintomas se manifestam pelo sistema digestivo – provocando náuseas, vômitos diarreia e dor abdominal –, no sistema respiratório com alterações nas mucosas, febres prolongadas por mais de três dias e possíveis manchas na pele. Em alguns casos, pode ter manifestações cardíacas.

“Associado a esses sintomas, a gente tem exames laboratoriais alterados que mostram uma inflamação intensa acontecendo naquele organismo”,

acrescenta a professora do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da UFMG, Lilian Diniz, entrevistada do programa Saúde com Ciência desta semana.

O problema é que a síndrome pode surgir de forma silenciosa, sem que a criança tenha tido sintomas graves ou apresentado qualquer sinal da covid-19. Estudo publicado na JAMA Pediatrics, em 6 de abril, mostra que 75% das crianças nos Estados Unidos com a síndrome grave não apresentaram sintomas de covid-19 no momento da infecção, mas de duas a cinco semanas depois, ficaram doentes  e tiveram que ser hospitalizados.

Como diferenciar a síndrome inflamatória de outras doenças?

A síndrome inflamatória multissistêmica pode se manifestar de maneira semelhante a outras doenças. Por isso, quando não há complicações, pode se passar por uma simples virose ou até uma infecção mais leve de covid-19. Para ajudar na diferenciação desta infecção para outras, a professora Lilian Diniz alerta que é preciso afastar todas as outras possibilidades para se considerar a síndrome. E para que se comprove a suspeita, a criança precisa ter tido contato com a covid-19.

“Em geral, essas crianças têm a presença de anticorpos contra o vírus, mostrando que ele, realmente, possa ter sido o gatilho para aquelas manifestações”, explica a professora.

Quanto à dúvida entre os sintomas causados pelo coronavírus e a SIM-P, a diferença está nos sintomas respiratórios. As principais manifestações da covid-19 aguda em adultos e crianças são respiratórias, com ocorrências de febre, tosse e falta de ar. Os sintomas digestivos também podem estar presentes, mas não são tão comuns quanto na síndrome inflamatória, o que acaba por se transformar no principal indicativo dessa condição.

Mas além da covid-19, cientistas comparam outra doença a essa síndrome. Segundo artigo publicado pela Sociedade de Pediatria de São Paulo, estudos confirmam que as manifestações da SIM-P compartilham algumas características comuns com a síndrome de Kawasaki. Mas ao passo que essa doença inflamatória acomete mais crianças com até cinco anos, a síndrome multissistêmica afeta crianças com mais de nove anos e apresenta sintomas gastrointestinais muito mais intensos e com maior elevação de marcadores inflamatórios.

Tratamento

A evolução da síndrome inflamatória multissistêmica costuma ser positiva quando o quadro é identificado cedo e as técnicas de tratamento são devidamente aplicadas. O tratamento é realizado com o uso de corticoides e um medicamento específico, conhecido como imunoglobina, que auxilia no controle da imunidade em casos de desordens inflamatórias no corpo.

“A resposta ao tratamento é muito boa. Então 48 horas depois do tratamento a gente já observa sinais de melhora”,

Relata Lilian Diniz.

Por se tratar de uma interação do organismo com o vírus, a professora aponta que não é possível prever quem vai desenvolver essa manifestação. Por isso, a especialista reforça a importância da prevenção contra o novo coronavírus também nesse público. Para conhecer algumas delas, bem como melhor maneira de se conscientizar os pequenos dos cuidados necessários, confira o programa Saúde com Ciência desta semana.

Saúde com Ciência é produzido pelo Centro de Comunicação Social da Faculdade de Medicina da UFMG e tem a proposta de informar e tirar dúvidas da população sobre temas da saúde. Ouça na Rádio UFMG Educativa (104,5 FM) de segunda a quinta-feira, às 5h, 8h e 18h. Também é possível ouvir o programa pelo serviço de streaming Spotify.


*Maria Beatriz Aquino – estagiária de Jornalismo
Edição – Karla Scarmigliat