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Ausência de rituais de despedidas torna o processo mais doloroso

Especialistas aconselham reinventar rituais de despedida neste momento para que o processo de luto seja mais saudável


21 de setembro de 2020 - , ,


O aposentado Ricardo Cruz não pode se despedir da mãe, que faleceu há pouco mais de um mês, vítima da covid-19. “Está sendo um momento muito cruel, mais cruel ainda é não poder ver nem o rosto da pessoa, então acaba que fica uma coisa meio que fictícia na mente da gente”, desabafa.

Devido as novas regras sanitárias, velórios de pessoas que faleceram com a confirmação ou suspeita da doença não estão sendo realizados. E, em geral, o caixão é lacrado. A ausência desse momento para racionalizar a perda e receber o conforto da presença de amigos e outros familiares pode levar a um luto ainda mais doloroso.

Nesta entrevista dada ao Saúde com Ciência, a psiquiatra e professora Tatiana Mourão (TM) e a psicóloga do Núcleo de Apoio Psicopedagógico aos Estudantes da Faculdade de Medicina da UFMG (Napem), Maria Aparecida Miranda da Silva (MA), falam sobre os aspectos psíquicos do luto.

O tema é abordado na série especial do programa desta semana, que também fala sobre diferentes causas que levam ao luto e analisa a aparente ausência de luto coletivo diante tantas mortes.

Qual a importância dos ritos de despedida do ponto de vista psicológico?

TM: Nós, humanos, precisamos de simbolismos para lidar com o luto. O ritual da morte faz parte de várias culturas. Se a gente for ver, alguns queimavam os corpos, algumas culturas muito ligadas ao mar colocavam o corpo em uma balsa e esse corpo ia para o mar. Quer dizer, nossa história enquanto humanos é ligada ao ritual do luto. E, por exemplo, o que eu tenho escutado é exatamente ao contrário: ‘ah, meu familiar foi para o hospital e a partir do momento que ele foi, não pude mais visita-lo, no máximo uma chamada por vídeo ou por áudio, até que ele morreu’. E aí, quanto esse familiar morreu, pode ser enterrado, mas com caixão fechado.

As famílias acompanham de longe o enterro e olha lá, umas cinco ou seis pessoas que podem estar ali. Isso para mim é algo devastador, porque além da perda que é dolorosíssima, há perda da possibilidade de um ritual, que é faz parte de toda a história da cultura humana.

Qual o impacto da não realização de rituais de despedida?

TM: As famílias em si ainda estão vivendo o luto de uma forma mais dramática do que era antes. Eu me lembro que a gente ia perder um familiar, a gente acompanhava no hospital, via que ele estava piorando, o processo de luto ia acontecendo com o nosso familiar. Não sei como essas pessoas também devem estar se sentindo, essas que morrem. Deve ser muito triste morrer sozinho, sem ver aquelas pessoas que fazem parte da nossa vida desde sempre, aquelas pessoas que nós amamos, acho muito doloroso tanto para quem perde o familiar quanto, eu imagino, para quem está no hospital. Essa solidão deve ser algo devastador.

O processo de luto está se tornando mais complicado neste momento?

MA: Sim, esse processo de luto está se tornando um luto complicado, muito mais doloroso para as famílias. É importante lembrar que cada pessoa vivencia o luto de uma forma muito singular. É preciso respeitar o tempo e o limite de cada um, pois não existe uma regra geral de como viver o luto. Com diz Caetano Veloso, ‘cada um sabe a dor e a delícia de ser quem é’.

Quando estamos falando exclusivamente do luto, ainda que seja um processo muito doloroso, é um processo natural. Portanto, não necessariamente o sofrimento oriundo desse processo é sinônimo de transtorno ou doença. Contudo, precisamos ficar atentos com os excessos. Se a pessoa enlutada está demorando um tempo muito significativo para voltar a um nível de funcionalidade e a ter uma rotina normal de atividades, então ela precisa buscar ajuda profissional. A terapia vai disponibilizar uma escuta atenta e ativa e sem julgamento, onde ela poderá falar sobre a perda envolvida de um ente querido, onde ela poderá melhor entender e ressignificar esse sentimento, compreendendo que ela deverá aceitar essa ausência e voltar a vida cotidiana. Então é muito importante que ela busque ajuda especializada.

O que as pessoas que não estão conseguindo viver os rituais de despedida podem fazer neste momento para um luto menos doloroso?

MA: O luto é um processo onde vivenciamos um turbilhão de sentimento diferentes, onde muitas vezes perdemos a esperança. Para o enlutado, o mundo realmente perdeu suas cores. O ato de poder falar sobre seus sentimos e realizar os rituais de despedida pode ajudar a pessoa enlutada a criar um sentido para o que aconteceu e a passar por esse momento de uma forma um pouco melhor.

Agora, nós estamos observando que as pessoas estão descobrindo novas maneiras de realizar os rituais. Algumas famílias estão construindo memoriais com fotos, com lembranças de entes queridos falecidos, dentro de casa ou de forma virtual, possibilitando que os amigos e outros parentes possam também escrever mensagem de carinho e afeto tanto para a família quanto para o ente querido que faleceu.

Essas novas práticas são muito importantes para que se possa vivenciar um processo de luto mais tranquilo. Então, é muito importante que as pessoas encontrem uma maneira de reverenciar seus mortos, uma maneira de homenageá-lo. Isso é saudável e muito importante nesse momento de tanta dor.

Um minuto de silêncio

Confira mais sobre esse tema no programa de rádio Saúde com Ciência desta semana, que aborda:
-> Quais sentimentos e emoções podem aparecer no luto?
-> Demissão: perder o emprego pode levar ao processo de luto              
-> Por que parece que não estamos vivendo o luto?                         
-> Covid-19 e a dor do luto sem despedida                             
-> Luto nas redes: iniciativas virtuais para lidar com esse processo       

Veja também: 
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