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Em inquérito nacional, 36% da população LGBTQI relata episódios semanais de discriminação

Pesquisa da Faculdade de Medicina da UFMG, em parceria com UFRJ, divulga primeiros resultados de dados colhidos durante a pandemia de covid-19.


27 de janeiro de 2021 - , , ,


O Inquérito Nacional de Saúde LGBTQI, pesquisa feita em parceria da Faculdade de Medicina da UFMG e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), divulga os primeiros resultados. Destaque para os pesquisadores, 36% dos participantes do estudo relatam episódios semanais de discriminação, sendo que 11% ocorreram dentro de serviços de saúde ou por profissionais de saúde.

Os primeiros resultados trazem dados referentes ao período da pandemia de covid-19, coletados até 30 de novembro de 2020. O questionário foi respondido por 976 pessoas da população LGBTQI. O objetivo do Inquérito é identificar os determinantes que impactam essa população, visando melhorar o atendimento dos serviços de saúde. Foram coletadas informações sociodemográficas, de sexualidade, violência e discriminação, além de condições e comportamentos em saúde, relacionados ou não à covid-19. 

A pesquisa teve início por uma demanda de uma Clínica da Família situada na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro. Antes da pandemia e da coleta via questionário, foram feitas 10 entrevistas presenciais. “No inquérito, foram relatados episódios de discriminação em espaços como restaurantes e serviços de saúde, por exemplo, tratamento com menos cortesia, pessoas ficarem com medo de você, não te acharem tão inteligente, entre outros. Isso mostra que a sociedade brasileira ainda é muito discriminatória, principalmente com essa população, o que gera um impacto muito considerável nas condições de saúde mental”, alerta a coordenadora do estudo e professora do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Medicina da UFMG, Juliana Torres.

Esse impacto pode ser visto na prevalência de diagnósticos médicos de depressão. Enquanto na população brasileira em geral esse quadro afeta 10% dos adultos (segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde, feita pelo IBGE em 2019), o Inquérito Nacional de Saúde LGBTQI encontrou 25% de relatos de diagnóstico entre esse grupo. 

A professora Juliana entende que esse número deve balizar condutas de saúde específicas voltadas para a população. “O dado é impressionante e mostra a grande carga dessa doença na população LGBTQI. Ele é importante para fazermos rastreio de saúde mental dessa população, identificar essas pessoas sobre maior risco de depressão, aconselhar a melhor terapia e evitar episódios de suicídio”, explica. 

Comportamento durante a pandemia

Os primeiros dados estudados buscam focar, com maior urgência, mudanças comportamentais da população LGBTQI durante a pandemia de covid-19. Outras frentes também estão em curso, com dados sobre vulnerabilidade em saúde e saúde mental.

Foi identificado maior consumo de álcool e cigarro entre o público estudado do que a população em geral. Houve aumento no consumo de bebida por 17% das pessoas, enquanto o de cigarro aumentou 6%. “Vimos que esses dois grupos, os que bebem e os que fumam, são os que tendem a aderir menos às estratégias de prevenção à covid-19”, se preocupa Juliana. 

Entre as respostas, as pessoas fumantes tenderam a não utilizar a máscara facial corretamente. Já as pessoas fumantes e que também ingerem bebida alcoólica tenderam a não respeitar as medidas de distanciamento social.

A equipe está começando a análise e irá explorar e divulgar as informações em artigos científicos e projetos de extensão. Já há, desde o primeiro momento, sugestões de intervenções que beneficiem a saúde da população LGBTQI. “Vimos a importância de se incluir perguntas sobre identidade de gênero e orientação afetiva nas linhas de cuidado do SUS, principalmente saúde mental, que é a principal carga nessa população”, afirma a professora. “Principalmente pelo grande número de episódios de discriminação. Precisamos saber identificar essa pessoa para poder prestar o melhor cuidado possível”, completa.

Entre os participantes, 18,9% relataram, no geral, sentir-se sozinho sempre.

O estudo inclui respostas de todas as regiões do Brasil, porém a maior adesão foi entre pessoas moradoras do sudeste, com alta escolaridade e acesso a planos de saúde. Mesmo nesse universo, a vulnerabilidade frente à pandemia foi alta na população LGBQTI. “Além dos fatores de vulnerabilidade que vemos para a população geral (pior escolaridade, raça não-branca, desemprego e fazer parte do grupo que recebia auxílio emergencial), vimos que as pessoas mais vulneráveis são as pessoas transexuais e não binárias”, acrescenta a pesquisadora.


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