`Internacionalizar é investir em nós mesmos´

Publicado em Entrevistas
15 de setembro de 2011

Abrir a instituição para o mundo é um investimento com retorno garantido. Essa é a opinião do professor Manoel Otávio da Costa Rocha, um defensor do processo de internacionalização da Faculdade de Medicina da UFMG. O desafio, porém, não é tarefa simples e passa pela ampliação do intercâmbio estudantil, pela diversificação do corpo docente, pela melhoria da infraestrutura, pelo estabelecimento de estratégias de divulgação internacional, etc.

A edição de setembro do Saúde Informa, boletim informativo da Faculdade de Medicina, traz um resumo da entrevista concedida pelo professor sobre o assunto. Aqui, publicamos a íntegra desta conversa, dividida em dois blocos. (Leia no segundo bloco: “Professores estrangeiros são atraídos por boas condições”)

 

Qual é a importância de desenvolver um processo de internacionalização das universidades brasileiras?
Internacionalizar é investir em nós mesmos. Quando estabelecemos contato com outros modos de trabalhar, de encarar a disciplina do estudo e de desenvolver o profissionalismo acadêmico, nós também criamos um ambiente acadêmico mais fértil. Então, mesmo que nós tenhamos núcleos de excelência, não significa que podemos nos fechar pro mundo. Pelo contrário, o trabalho se desenvolve mais quando estabelecemos parcerias. Não defendo uma ação subserviente. Não se pode aceitar a condição de simplesmente fornecer os dados para eles fazerem estudos. A internacionalização é uma troca, uma parceria acadêmica.

Considerando o atual panorama da UFMG, esse processo de internacionalização passaria por quais medidas?
O ponto central da internacionalização da UFMG passa pelo intercâmbio de alunos, de professores e do conhecimento. A nossa política tem que ser de mandar pra fora todo mundo que quiser. Na minha visão, sempre houve dificuldade de se criar e manter na graduação um programa institucionalizado e ordenado de intercâmbio. Na pós-graduação, o quadro é um pouco mais favorável. A UFMG tem cursos de excepcional qualidade como o de Demografia, de Física, de Literatura, de Bioquímica, de Fisiologia e de Microbiologia. Esses cursos têm nota 6 ou 7 da Capes e são de padrão internacional. Aqui na Faculdade de Medicina, nós temos dois cursos de padrão internacional: a Saúde Pública e a Medicina Tropical. E nesses cursos, nós recebemos alunos estrangeiros: angolanos, moçambicanos, argentinos, etc. Mas ainda assim, são muito poucos.

Segundo dados da imprensa, as grandes universidades dos EUA como Columbia, Harvard, Stanford e Cambridge possuem cerca de 20% graduandos e pós-graduandos estrangeiros. No Brasil, as universidades que mais recebem estudantes de outras nacionalidades possuem em torno de 2%. A que razão se pode atribuir essa diferença?
Eles têm esta abertura porque há interesse acadêmico, político e também econômico. Se você estuda Radiologia na Alemanha, qual equipamento radiológico você vai usar quando voltar pro Brasil? Siemens, claro! Isso acontece, mas eu acho que nós temos que cultivar também o princípio de fraternidade e solidariedade, sobretudo com os países de língua portuguesa: Timor Leste, Moçambique, Cabo Verde, etc. Nós temos obrigação moral com esses países em função da importância deles na formação étnica e cultural do Brasil. Temos que ter essa vontade política. Obviamente também existe o interesse acadêmico nessa relação. Angola, por exemplo, é um país rico de recursos naturais, mas não tem recursos humanos. Isso precisa ser desenvolvido pela academia. Ao dar essa contribuição, nós aumentamos a expressão da UFMG.

E qual a melhor estratégia para aumentar o número de alunos estrangeiros nas universidades brasileiras?
É preciso ter mais visibilidade, mostrar o portfólio, a qualidade do corpo docente, as linhas de pesquisa, o tamanho da universidade, etc. Tem que investir em divulgação. É isso que Harvard faz. O nosso site, por exemplo, tem que ter versões em inglês, espanhol e português. A diretoria da Faculdade já está cuidando disso. Mas é essencial também criar condições mais propícias. Nós não oferecemos curso de português e nem de inglês para alunos estrangeiros. Não temos seguro-saúde e seguro-odontológico. A Fundação Mendes Pimentel (Fump) ainda não tem uma articulação pra oferecer isso. Mas eu não tenho dúvidas de que isto ainda será feito, porque estamos num momento de ampliação da consciência.

Num país onde menos de 20% dos jovens ingressam nas universidades, preocupa iniciar um processo de abertura de vagas para estrangeiros sem antes promover a inclusão da nossa própria juventude?
Sabe quantos estudantes universitários tinham no Brasil em 1964? 60 mil. Sabe quantas temos hoje? 6 milhões. Isso foi o que aconteceu com as universidades brasileiras. Agora, é claro que existem as distorções: a maior parte do crescimento se deu através de cursos particulares com qualidade discutível. Mas nós crescemos exponencialmente. E assim também ocorreu com a pós-graduação, que foi sendo desenvolvida a partir da década de 70. Hoje nós soltamos 10 mil doutores por ano, mas não há mercado pra eles. Há pouca inserção no mercado de trabalho e na produção tecnológica. Porque ser doutor não é simplesmente ter um título na mão, mas ter qualificação para a pesquisa. Agora onde eles vão desenvolver pesquisa? É preciso uma indústria que produza. É essencial uma articulação entre a universidade e a indústria. E aí nós não vamos nos preocupar com inovação tecnológica? O que eu estou querendo dizer é que os problemas são variados: o acesso ao ensino superior, a ampliação do nosso parque industrial, a internacionalização das universidades. O desenvolvimento nacional depende do enfrentamento de todas estas questões simultaneamente. Não são contraditórias.

A política de diversas grandes universidades envolve a concessão de bolsas de estudo aos estrangeiros. Qual é o retorno de oferecer bolsas de estudo pra uma mão-de-obra que não irá atuar no país?
Eles vão usar os seus produtos e também serão agentes da sua cultura. O estudante que cria um vínculo no Brasil automaticamente vira um agente cultural, faz propaganda, ajuda a abrir portas e oportunidades para o nosso país. Isso tem impacto do ponto de vista político, econômico e acadêmico. Basta ver o respeito internacional que a França tem na área de Farmácia ou que a Alemanha tem na área de Radiologia. Esse respeito foi conquistado também pela capilaridade das instituições. Eles recebem gente de todos os lugares do mundo. Isso é investimento dos mais baratos.

Qual o principal ganho pro ensino de se ter, nos departamentos, professores de diferentes origens?
Não podemos ter endogenia demais. Nós temos valorizar as boas pessoas que se formam aqui. Mas também é importante balancear as equipes com gente de fora. Muitas boas universidades se caracterizam por essa diversidade. Elas não estão preocupadas com a origem dos professores. Pode ser coreano, indiano, japonês, islâmico, etc. Desde que o professor seja bom, pode ser qualquer um. Grande parte do desenvolvimento dos EUA foi devido a essa política. Mesmo em momentos de acirrada disputa política, os EUA foram pragmáticos e aceitaram pesquisadores de ponta vindos de países considerados inimigos. O Canadá é outro exemplo. Eles pegam produto formado de várias partes do mundo. Já imaginou quanto custa para o país formar um professor doutor experiente e com linha de pesquisa estabelecida? Então o Brasil precisa valorizar os seus docentes e, ao mesmo tempo, estimular a vinda de professores estrangeiros. Isso pode ser feito de diversas formas. Por exemplo, nós estamos com uma professora da pós-graduação em Medicina Tropical lá no Massachusets General Hospital, que fica em Boston e é um dos principais hospitais do mundo. Ela foi conhecer uma ecocardiografia tridimensional e foi aprender métodos de estudos estatísticos. Mas sabe qual o principal ganho? O estabelecimento de vínculo. Porque pode ser que, no ano que vem, ela consiga convidar alguém para vir à UFMG. E aí, ao invés de ensinar um professor, irão ensinar quatro ou cinco de uma só vez. É muito melhor.

Leia o segundo bloco da entrevista:
“Professores estrangeiros são atraídos por boas condições”

Assessoria de Comunicação Social da Faculdade de Medicina da UFMG
jornalismo@medicina.ufmg.br




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