Abandono do tratamento dificulta controle da tuberculose

Publicado em Divulgação científica
16 de agosto de 2007

Tese de doutorado defendida na UFMG aponta tratamento supervisionado como melhor alternativa para erradicar a doença

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) um terço da população mundial está infectada com a bactéria que provoca a tuberculose. Qualquer alteração na resistência imunológica do organismo dessas pessoas pode levá-las a desenvolver a doença, que provoca a morte de 4,4 mil pessoas diariamente, em todo o mundo.

A grande incoerência dessa realidade é que existe cura para a doença. No Brasil, o tratamento é totalmente financiado pelo SUS, incluindo os medicamentos. Uma tese de doutorado defendida no Programa de Saúde Pública da Faculdade de Medicina da UFMG mostra que o principal obstáculo do controle da tuberculose é o abandono do tratamento.

Para combater este problema a OMS criou o DOTS (Directly Observed Treatment Short-course) – que consiste na observação dos pacientes -, adotado no Brasil como ‘Estratégia do Tratamento Supervisionado da Tuberculose’.

miriam.jpgA enfermeira sanitarista Mirian Pereira Domingos (foto) é a autora da pesquisa, que avaliou os efeitos dessa estratégia e dos fatores associados ao óbito e ao abandono de tratamento, entre 1996 e 2005, na cidade do Recife, em Pernambuco. Ela atuou como coordenadora estadual do controle de tuberculose na capital pernambucana, cidade que, depois do Rio de Janeiro, tem o maior índice de mortalidade decorrente da tuberculose no País.

Segundo a pesquisa, que pode ter seus resultados extrapolados para as grandes cidades brasileiras, a maioria dos pacientes que pararam de tomar os remédios antes dos seis meses prescritos eram homens com baixa escolaridade e alcoólatras, muitos reincidentes na interrupção. “Este é o perfil que deve ser priorizado para ser supervisionado”, orienta a pesquisadora, para quem “após dois meses o paciente engorda, não tem sintomas, e ele mesmo se dá alta”.

Mirian orienta ainda que, desde os primeiros meses, o paciente precisa ter disciplina com o tratamento, pois nesse período a doença ainda pode ser transmitida. É muito importante manter a regularidade de ingestão do medicamento recomendado, para evitar que a bactéria fique resistente às drogas. Nesse caso a cura se torna bem mais difícil, cara e longa. O resultado é maior sofrimento do paciente e maior investimento por parte do poder público para sua reabilitação. Ou pior, a morte de uma pessoa ocasionada por uma patologia curável.

O simples fato de se acompanhar a ingestão do medicamento – por um agente de saúde ou pessoa da comunidade, reduziu o abandono do tratamento em 28% e a mortalidade em 50%. A estratégia teve outros efeitos positivos, em Recife. O número de casos detectados aumentou – “o que não significa, necessariamente, que houve um aumento dos casos de tuberculose, mas que o serviço de saúde passou a ter um maior controle sobre o número de doentes”.

Mudou também o perfil dos casos de óbito. Antes, os doentes morriam a partir dos 30 anos. Depois da implementação do DOTS, a faixa etária passou para 40 anos. As mortes entre os homens – considerados menos cuidadosos com a saúde e mais expostos aos riscos de doença e morte, segundo vários estudos – também diminuiram.

Na avaliação da orientadora da tese, professora Waleska Teixeira Caiaffa, do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Medicina da UFMG, o uso de dados observados em serviço de saúde – público – em um trabalho científico é positivo na medida em que oferece recomendações relevantes que podem melhorar o tratamento oferecido à população. “E outros estudos, futuros, poderão aprimorar a efetividade deste tratamento”, avalia.

Outro aspecto destacado pela professora é a constatação através da pesquisa de que as informações colhidas dos pacientes pelos médicos podem ser mais abrangentes. “O nível de escolaridade, por exemplo, está diretamente relacionado com o óbito, e essas informações, em geral, estão incompletas nos registros de atendimento”, alerta.

Estratégia Dots em BH

De acordo com a pneumologista Maria das Graças Rodrigues de Oliveira, coordenadora do Programa de Controle da Tuberculose da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte, os 142 Centros de Saúde da capital realizam o Tratamento Supervisionado da Tuberculose. “Mas isso não significa que 100% dos pacientes são atendidos”, esclarece.

Para Maria das Graças, as principais dificuldades para a implantação da estratégia são: falta de agentes de saúde suficientes, risco para os profissionais nas áreas onde há tráfico de drogas, além da resistência dos próprios doentes. “Os moradores de rua e os alcoólatras constituem a população mais difícil de atingir”, destaca.

Segundo a professora Silvana Spíndola de Miranda, que coordena o Ambulatório de Tuberculose do Hospital das Clínicas da UFMG, uma pesquisa semelhante deverá ser orientada por ela em Belo Horizonte.

Tese de Doutorado
Tuberculose em Recife, PE: o efeito da estratégia DOTS e fatores associados ao óbito e ao abandono de tratamento, 1996 a 2005
Programa de Pós-graduação em Saúde Pública – Área de concentração em Epidemiologia
Autora: Mirian Pereira Domingos
Orientadora: Profa. Waleska Teixeira Caiaffa
Data da Defesa: 10 de agosto de 2007

Assessoria de Comunicação Social da Faculdade de Medicina da UFMG
Redação: Alessandra Ribeiro – Jornalista
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