Atendimento pré-hospitalar pode salvar vítimas de trânsito

Publicado em Divulgação científica
28 de janeiro de 2008

Pesquisa desenvolvida na UFMG mostra que a implantação dos serviços de emergência e de políticas públicas voltadas para o trânsito ajudaram a reduzir mortes em Belo Horizonte.

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roberto_marini_jan08_acidentes_transito.jpgA taxa de mortes entre os pacientes atendidos em hospitais depois de sofrer acidentes de trânsito em Belo Horizonte caiu de 3,3% para 1%, entre 1994 e 2003.

E a redução do número de mortes a quase um terço coincide com a implantação do serviço de Resgate na capital, a partir do primeiro semestre de 1995.

“O atendimento adequado no menor tempo possível é determinante no prognóstico do paciente”, afirma o médico epidemiologista Roberto Marini Ladeira, que atua no Hospital João XXIII e na Secretaria Municipal de Saúde.

Ele defendeu a tese de doutorado “Acidentes de Trânsito em Belo Horizonte: fatores associados ao atendimento pré-hospitalar, internações e óbitos, em 1994 e 2003”, no Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da Faculdade de Medicina da UFMG, orientado pela Profa. Sandhi Maria Barreto.

Além da implantação do Resgate, Ladeira lembra que outros fatores podem ter contribuído para a redução das mortes no trânsito da capital: a entrada em vigor do Código de Trânsito Brasileiro, as mudanças na área de engenharia de tráfego, como a instalação de radares para controle de velocidade, por exemplo.

Metodologia
O trabalho consiste na comparação de dois estudos feitos pela Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte e BHTrans, nos períodos de 3 de novembro a 3 de dezembro de 1994 e 10 de novembro a 14 de dezembro de 2003, respectivamente.

As vítimas ou seus acompanhantes foram submetidas a um questionário sobre o meio de transporte até os hospitais participantes, tipo de lesões sofridas, período de internação, uso de bebidas alcoólicas, entre outras características.

As estatísticas do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) não foram incluídas, já que o Samu foi implantado em Belo Horizonte somente a partir de 2004.

Os números
De acordo com a pesquisa, o número de internações nos dois anos estudados permaneceu estável. Em 1994, 16,7% das vítimas de acidentes ficaram mais de 24 horas nos hospitais, contra 15,1% em 2003.

Em 1994, o serviço de atendimento pré-hospitalar ainda não estava estruturado na capital. Já em 2003, 47,8% dos pacientes que chegaram aos ambulatórios dos serviços de emergência tinham recebido atendimento pré-hospitalar. Indivíduos que chegaram aos hospitais em menos de 60 minutos apresentaram chance 22% maior de serem transportados pelo serviço de atendimento pré-hospitalar.

A pesquisa mostra que os pacientes com lesões mais graves tiveram 76% a mais de chance de receberem atendimento pré-hospitalar. A possibilidade de atendimento dos pacientes com mais de 50 anos foi 50% maior. Entre os pacientes que haviam usado bebidas alcoólicas, esse percentual foi 26% maior.

O médico indica três critérios que devem ser observados na triagem do atendimento: gravidade das lesões, idade da vítima e consumo de bebidas alcoólicas, que pode prejudicar a avaliação neurológica do paciente. Ele considera que os resultados mostram que serviço de atenção pré-hospitalar de Belo Horizonte mostrou-se eficiente neste parâmetro, uma vez que pareceu priorizar pacientes mais graves.

Perfil das vítimas
No total, foram avaliados 3991 pacientes (1719 em 1994 e 2272 em 2003), a maioria homens jovens, atendidos em hospitais de urgência e emergência de Belo Horizonte.

Em 1994, as principais vítimas de acidentes de trânsito em Belo Horizonte eram os pedestres. Já em 2003, devido ao aumento da frota de motocicletas, os condutores e passageiros desses veículos foram os que mais sofreram acidentes.

Mas, embora os pedestres não sejam mais a maioria dos acidentados, eles ainda são as vítimas mais graves, ao lado dos ciclistas. “O pedestre é mais vulnerável, por não usar equipamentos de segurança, e por isso não pode ser esquecido”, alerta o autor da tese.

De acordo com a pesquisa, a chance de um pedestre receber atendimento pré-hospitalar foi 27% menor em relação a motoristas e passageiros de automóveis, por exemplo. Os motivos desta chance diminuída merecem maior investigação.

Avaliação
O coordenador do Setor de Cirurgia e Trauma do Hospital Universitário Risoleta Tolentino Neves, Professor João Batista de Rezende Neto, foi um dos integrantes da banca examinadora da tese. Para ele, a pesquisa tem grande relevância para a elaboração de estratégias destinadas à redução das mortes por acidentes de trânsito no país.

“O Brasil é um dos países do com índices de acidentes mais altos, mas publica poucos trabalhos científicos sobre trauma, diante das dificuldades para coletar dados nos serviços de urgência e emergência”, afirma.

SERVIÇO
Tese de doutorado
“Acidentes de trânsito em Belo Horizonte: fatores associados ao atendimento pré-hospitalar, internações e óbitos em 1994 e 2003″
Autor: Roberto Marini Ladeira

Banca examinadora:
Profa. Sandhi Maria Barreto – Orientadora (UFMG)
Profa. Maria Sumie Koizumi – Universidade de Guarulhos
Profa. Deborah Carvalho Malta – Ministério da Saúde
Celeste Rodrigues – Secretaria Municipal de Saúde – BH
Prof. João Batista de Rezende Neto – Hospital Universitário Risoleta Neves

 

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Redação e foto: Alessandra Ribeiro – Jornalista

Assessoria de Comunicação Social da Faculdade de Medicina da UFMG
jornalismo@medicina.ufmg.br




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